Outra maneira de se casar.

4 05 2009

Olá a todos.

Entre todas as coisas que me deixaram perplexo aqui no Japão, acho que uma das mais estranhas é o casamento. Todos nós brasileiros estamos acostumados com a seguinte imagem do casamento, as pessoas se conhecem, se gostam, e decidem passar o resto da vida juntos, aí surge o casamento como conhecemos.

Mas no Japão, existe uma outra forma de casamento, conhecida como “omiai”, que se parece muito com os casamentos de antigamente, aqueles que eram combinados e arranjados pelos pais das duas partes.

A diferença entre a forma que conhecemos de casamento decidido pelos pais, e o “omiai”, é que no segundo caso, muitas vezes é o próprio candidato ao casamento que procura esse caminho para encontrar uma companheira.

E tudo se parece com uma entrevista de candidatos a emprego, as duas partes recebem algo como um currículo do candidato, e decidem pela melhor escolha, aparencia, idade, salário, família, são itens importantes nessa escolha.

Algo que sempre me pergunto é, como as pessoas podem se casar sem amor? Parece até uma coisa obrigatória, um ato para simplesmente perpetuar a espécie. Antigamente quando vivíamos em uma sociedade patriarcal, isso poderia até parecer normal, mas estamos vivendo uma outra realidade hoje, e me espanta esse tipo de mentalidade ainda muito comum na sociedade japonesa.

Os motivos para tal comportamento são os mais variados, falta de tempo, procura por estabilidade, idade já considerada avançada para se “namorar”, e também pressão por parte da família.

Uma pergunta inevitável é se esse tipo de casamento tem alguma chance de dar certo. Mas para a minha surpresa e de outras pessoas que estão lendo este post, a grande maioria dos casamentos são bem sucedidos, as duas partes acabam se entendendo e tornan-se digamos, “amigos”, o marido trabalha e a esposa cuida da casa e dos filhos, e tudo se ajeita.

Mas apesar de tudo, a grande maioria dos japoneses se casam por amor, como em outros lugares do mundo, e apesar de algumas diferenças culturais, somos afinal todos mais ou menos parecidos.

Em outros posts vou escrever mais um pouco sobre as peculiaridades dos japoneses, um abraço e até lá.





A impagável perda da cultura.

4 05 2009

Olá pessoal.

Durante todos esses anos que vivo no Japão, algo que sempre me chocou foi a cultura do descartável. Como já citei em outro post, essa mania que os japoneses tem de achar que tudo é facilmente substituível, está se tornando um grande problema.

E pensando nisso, me lembrei de um assunto que sempre comento com os japoneses com os quais convivo, o Japão do pós guerra, era um país totalmente quebrado, sem comida ou bens em quantidade suficiente para sua população, mas com muito trabalho duro, chegaram ao padrão de vida atual. Isso é muito bom, quando visto de fora, mas estando aqui, vendo tudo de perto, não deixo de ter uma certa apreensão quanto ao futuro deste país.

A geração que trabalhou duro para levantar o Japão no pós guerra, hoje está envelhecendo, já passa dos 60 anos, e as gerações seguintes vivem em um sonho de um mundo perfeito, onde tudo se consegue de maneira muito fácil, é só pagar que se pode conseguir tudo, eles estão esquecendo o quanto é duro viver. Problemas com o lixo? É só pagar que existe alguma empresa que recolhe. Problemas com a saúde? É só pagar um bom seguro que tudo se resolve. Problema com a educação? É só pagar um bom curso depois, que tudo se resolve. Algo quebrou? É só comprar outro.

Tudo isso, tornou os japoneses um tanto insensíveis, parece que eles não percebem a perda da sensibilidade, da cultura, em meio a tantos produtos, modismos e soluções prontas que é a base de toda a cultura consumista do Japão atual.

E a preocupação que tenho, é compartilhada por muitas pessoas mais velhas com as quais conversei,  eles temem pelo futuro do Japão, pois os jovens de hoje perderam a noção do valor das coisas, pois só conhecem a fartura, e são poucos os que ainda tem o que eles chamam de “hanguri seishin”, que seria em português, algo como a garra daqueles que já sofreram muito.

É triste ver o país de meus antepassados se esquecendo de valores que eram tão importantes, uma cultura milenar se diluindo em meio a loucura da modernidade, e jovens sem identidade, levando o país para um futuro sem uma identidade cultural.

É só por enquanto, um abraço pessoal.





A cultura da aceitação.

23 04 2009

Olá pessoal.

Sei que é um assunto polêmico para os ocidentais, pois nos países de cultura cristã, o homossexualismo é considerado pecado, e não é raro encontrar pessoas com uma visão totalmente preconceituosa sobre o assunto. Creio que isso se deve principalmente a educação cristã em si, pois nos países do oriente, a visão é bem diferente.

Em vários países da ásia, encontramos culturas que aceitam o homossexualismo como algo normal, sem aquela imagem ligada a promiscuidade e a prostituição, que é tão comum na cultura ocidental, e o Japão não é excessão, devido a uma cultura com valores bem diferentes dos ocidentais, percebi uma abordagem totalmente diferente do assunto.

Há muito tempo, vê-se na TV do Japão, artistas que são abertamente homossexuais, na grande maioria homens que assumiram a identidade do sexo oposto, e vez ou outra aparecem outros que são afeminados e tem uma grande popularidade como cantores ou atores, e isso é mostrado sem nenhuma conotação pejorativa, inclusive eles próprios brincam com o fato.

Quando vim ao Japão, sinceramente, na visão estreita das que tinha na época, isso me pareceu um tanto estranho, não que tenha algum preconceito quanto as escolhas de cada um, pois acho que cada um escolhe o caminho que lhe parece melhor, e ninguém tem o direito de dizer o que é certo ou o que é errado. Mas quando se cresce escutando que ser homossexual é uma aberração, que é pecado, que deus e a igreja condenam, acaba-se ficando condicionado a essa idéia, mas ainda bem que tive a oporunidade de conhecer outra cultura com outros valores que me ajudaram a ver tudo de um ponto de vista diferente.

Aqui no Japão, o fato de ser homossexual é uma coisa tão normal que nem crianças nem velhos tem preconceitos acerca disso, é assim e pronto. Como sou curioso e gosto de saber o porque das coisas, procurei saber o porque disso, e me deparei com uma cultura milenar de aceitação do homossexualismo.

Acho que o relato mais comum que encontrei, foram os relatos da época da guerra dos clãs(1493-1573), quando os guerreiros partiam para a guerra, era permitido apenas aos homens acompanhar os batalhões, e sendo assim, os chefes dos clãs sem mulheres para distraí-lo, chamavam os jovens de seu batalhão para beber e se divertir junto com eles.

Outra coisa bastante comum a séculos, são as companhias de teatro, no passado existiam várias delas que viajavam todo o Japão apresentando peças teatrais nas cidades e pequenos povoados, e ainda hoje, o formato das companhias e das peças perdura com poucas modificações, e é muito comum nessas peças que os homens assumam papéis femininos, os atores desde pequenos se maquilam e dançam no papel de mulheres, incorporando perfeitamente o papel feminino.

O contrário também é válido, existe no Japão uma compahia de teatro e dança chamado “Takarazuka Gekidan”, que é uma companhia formada exclusivamente de mulheres, e os papéis masculinos também são todos representados por mulheres, e é um sucesso absoluto, com um público fiel em todo o Japão.

Outra coisa bastante comum são os pubs de travestis, que não são exatamente como os ocidentais estão acostumados a ver, mas apenas lugares onde se vai para beber e conversar, pois os homens muitas vezes gostam da visão que os homossexuais tem da vida, que é uma visão híbrida, nem masculina nem feminina das coisas, e isso ajuda a tirar um pouco do estresse do dia a dia, pois é bom ser compreendido por alguém que conhece os dois lados da moeda.

Mas juntando tudo em um cenário só, eu diria que o Japão é um país sem preconceitos quanto ao homossexualismo, é mais uma prova de que a cultura e a história de um país, pode mudar totalmente o modo de ver de um povo, provando que o preconceito existe nos olhos de quem vê.

É só por enquanto pessoal, um abraço.





O valor da vida.

14 04 2009

Olá pessoal, gostaria de mostrar um pouco da face oculta do Japão, coisas que geralmente poucos falam, mas que está presente no dia a dia do Japão.

O Japão é um país único, culturalmente falando, alguém vindo de um país ocidental, muitas vezes não entende o modo de pensar desse povo.

Umas das coisas que mais me chocaram aqui, foi o valor dado à vida, não são raros os casos de suicídio aqui no Japão, há casos grotescos em que os pais matam os filhos e depois se suicidam, e outros em que os filhos matam os pais e depois se matam, existem casos e casos, a taxa de suicídios é a maior entre os países desenvolvidos, com uma média de 25 por cada 100 mil habitantes, parece pouco, mas se comparado ao Brasil, com uma média de 5 por cada 100 mil, é um número assustador. E vendo-se que a maioria dos suicidas são jovens ainda em idade escolar, podemos ver o grande problema social que existe por trás dos números.

Uma vez conversando entre amigos, ouvi a frase, “japonês é um bicho besta, morre por qualquer coisa, no Brasil não é assim”, pensei um pouco sobre isso e dei minha opinião sobre “japonês ser um bicho besta, e brasileiro não”, argumentei que o suicído no Japão não é considerado pecado, pois pecado é um conceito incutido pela cultura cristã, desde pequenos ouvimos que suicídio é pecado, que os suicidas vão para o inferno e coisa e tal, e isso acaba por moldar uma visão de medo em relação ao assunto. Mas o Japão é um país budista, que prega a reencarnação, na cabeça deles, morreu, é só voltar e começar tudo de novo.

Desde o tempo dos samurais, o suicídio era considerado uma solução em casos extremos, o “seppuku”, que os ocidentais conhecem também como “harakiri”, foi amplamente usado como modo de limpar a honra. Vemos na história que foi uma prática normal entre os japoneses de antigamente. O que acabou criando uma imagem dramática e romântica em torno desse ato.

É chocante constatar a falta de valor dado à vida aqui no Japão, o pensamento de que morrer acaba com todos os problemas, mas aos poucos, parece que o pensamento dos japoneses está mudando. A algum tempo atrás, vi uma reportagem na TV japonesa sobre um senhor que tinha um câncer pulmonar maligno, com apenas dois meses de expectativa de vida. Com o pouco de tempo de vida que lhe restava, ele tomou uma atitude digna de elogio, este senhor passou seus últimos dias viajando pelo Japão, dando palestras em escolas, falando sobre sua experiência de vida, sobre como tudo se torna fútil, dinheiro, posses, quando o fim se torna iminente.

Ele contava que tudo o que ele ganhou e construiu durante a vida não lhe valiam nada, o que valia mesmo era o amor de sua família e amigos, coisa que aqueles que se suicidam, não dão valor nenhum, e terminava dizendo:

“E para todos aqueles, que acham que a vida não vale nada, que é melhor morrer porque não estão contentes com sua vida atual, eu quero esse tempo de vida de vocês, se possível fosse, queria essa vida para mim. Agora que me restam apenas poucos dias, gostaria de poder fazer muito mais, de poder fazer aquilo que não enxergava antes. Por isso agora eu digo, não desperdicem suas vidas por motivos fúteis, há uma vida inteira esperando por vocês lá fora, há tantas pessoas que se pudessem levariam a vida que vocês estão levando hoje, mas estão condenados a morrer em pouco tempo. Vivam, pois a mais maravilhosa das dádivas é a vida. “

É difícil para nós entendermos o que se passa na cabeça de alguém que se mata, mas a cultura tem um papel muito grande neste tipo de pensamento aqui no Japão, a competição acirrada de uma sociedade que não perdoa a falha, a cobrança de se entrar em uma boa escola, em uma faculdade conceituada, de se encontrar emprego em uma grande empresa, as pessoas são massacradas pelas cobranças da sociedade, e a solução no final, é simplesmente morrer. Mas o governo e outras organizações não ficam parados olhando tudo isso acontecer, existe um trabalho muito grande, que tenta ajudar as pessoas, e principalmente os jovens, com aconselhamento psicológico e um trabalho social no sentido de acabar com o grande número de suicídios existente no Japão.

A curto prazo não vejo uma solução para este problema, mas espero que as coisas mudem e que os japoneses dêem mais valor à suas próprias vidas.

Qualquer opinião, deixem um comentário.

Até outra pessoal.





A diferença nossa de cada dia.

7 04 2009

Olá pessoal.

Hoje andei pensando novamente sobre as diferenças entre brasileiros e japoneses aqui no Japão. Porque gostar ou desgostar uns dos outros?

Há aqueles que gostam daqui, por causa do dinheiro, da segurança, da estabilidade e tudo o mais que existe de bom nessa terra.

E há aqueles que não gostam daqui, por causa da cultura, da língua, das pessoas, e tudo o mais que possa tornar a vida aqui mais difícil.

Acredito que todos aqueles que não gostam daqui, sejam aqueles com problemas de adaptação, conheci muitos deles, uns diziam ficarem nervosos por não entenderem o que os japoneses diziam, outros achavam os japoneses muito “bobos”, ficavam sempre rindo de piadas sem graça e brincadeiras infantis, outros se achavam segregados pelos japoneses, diziam que por serem brasileiros, eram tratados de maneira diferente.

Todas as reclamações tem seu fundo de verdade, mas se forem vistos de um outro ponto de vista, mostra a falta de conhecimento e a falta de habilidade em se lidar com uma cultura diferente.

Sobre os japoneses parecerem bobos, por um certo lado concordo, mas acho que isso se deve a cultura do pós-guerra, não existe tensão, nem uma vida “dura” o suficiente para que sejam “espertos” como os brasileiros, por causa disso, acho que não existe a malícia acentuada de um brasileiro, acostumado a sempre supor que o próximo pode lhe sacanear.

O humor japonês e as piadas, são outra coisa que os brasileiros não entendem, o senso de humor japonês é totalmente diferente do nosso, assim os japoneses não entendem nossas piadas, assim como eu não entendo as piadas dos americanos, cada povo tem uma maneira própria de entender as coisas, sendo assim não há como se entrar em um consenso, a não ser que se conheça a cultura e a língua uns dos outros.

Os japoneses não entendem a graça de uma piada de portugues e brasileiros não entendem aqueles dois comediantes que falam rápido pra caramba e ficam batendo na cabeça um do outro, mas fazer o que, é a cultura de cada povo e fica difícil explicar tanto para o japonês como para o brasileiro, só tendo um bom conhecimento da língua e dos costumes é que se pode entender o porque de tantas risadas dos dois lados.

E finalmente existe a reclamação da discriminação que muitos “pensam” sofrer, eu digo “pensam” porque na grande maioria das vezes é só uma impressão causada pela maneira de agir dos japoneses ou pela maneira de falar, mas vendo “de fora”, como um observador, muitas vezes a maneira como os brasileiros falam com os japoneses, é um palavreado seco, pela falta de conhecimento do idioma, e desrespeitosamente intimista para os costumes japoneses, que são um povo muito reservado, o que no final acaba causando um distanciamento pela estranheza da cultura e dos costumes do brasileiro, que dá a impressão de que os japoneses não gostam de brasileiros ou não querem conversar conosco.

Mas apesar de todas as diferenças e dificuldades, conheci pessoas que se adaptaram muito bem ao Japão, assim como os japoneses que foram ao Brasil também se adaptaram, e assim continuamos nosso intercâmbio.

É isso aí pessoal, até a próxima.

Um abraço.








Seguir

Obtenha todo post novo entregue na sua caixa de entrada.