Estamos sozinhos nessa terra.

4 06 2009

Olá a todos.

Os dias passam e tenho tentado manter a mente ocupada para não ficar pensando besteira, e fico aqui pensando na visão que tenho do Japão e na vida que os brasileiros levam aqui, são muitas as diferenças e as dificuldades, quando se vive em uma terra tão estranha.

Uma coisa que achei muito estranho, foi  a falta de união que existe entre os brasileiros que vivem no Japão, entre as comunidades de estrangeiros que conheci aqui, fora algumas excessões, nossa comunidade brasileira é a mais desunida, justamente nós que temos fama de sermos sociáveis e calorosos, será que é culpa da cultura do cada um por si e deus pra todos?

Nas fábricas onde há brasileiros, sempre existem as panelinhas, os fuxicos, e aqueles que querem puxar o tapete dos outros para se sobressair, e não são poucos os casos, cada brasileiro que encontrei, tem pelo menos duas ou três estórias pra contar de casos assim, de brigas por causa de nada, e juras de vingança quando voltar ao Brasil. O que há de errado conosco?

Não sei se isso é em parte um reflexo de nossa estada temporária no Japão, que torna as relações um tanto superficiais, ou se realmente nos tornamos um bando de convencidos, que não ligam pra ninguém, pois me lembro que no Brasil, as coisas eram diferentes, lá ao menos, existia um pouco de calor humano, coisa que por aqui é cada vez mais rara.

Em um país em que quem ganha mais pode mais, acabamos por nos deixar envenenar pela inveja, inveja de um carro melhor, de um apartamento melhor, de um domínio da língua melhor, de um status melhor com o chefe, tudo coisas que são na verdade passageiras, pois voltando ao Brasil, tudo não passará de uma lembrança.

Mas continuamos nos degladiando por causa disso, pois nos falta a consciência, de que somos brasileiros nessa terra, e devíamos nos ajudar ao invés de ficar tentando pisar em cima dos outros.

Mas é essa a realidade, enquanto uns rosnam outros riem, e assim nossa vida no Japão continua.

É isso aí, um abraço.





Frágil equilíbrio.

19 05 2009
Akihabara

Akihabara

O Japão é um país interessante, enquanto se vive a loucura da vida hi-tech no dia-a-dia, com a nata da alta tecnologia como televisores, celulares, games e carros modernos, existe um outro Japão que parece ter parado no tempo.

É interessante ver o contraste entre a modernidade, que insiste em invadir todos os lugares, e a cultura e a tradição, que insistem em sobreviver em meio a tudo isso.

As vezes andando no meio de uma metrópole, deparamos com um templo budista, incrustado em meio aos prédios, totalmente deslocado em meio a paisagem moderna. Assim como vemos monges budistas com o mesmo tipo de roupa usado durante séculos, coisa muito fácil de se perceber pelos desenhos antigos em que aparecem.

Assim como não é raro ver pelas ruas de vez em quando, mulheres trajando “kimonos”, que são roupas de um estilo que vem de vários séculos. São roupas usadas em ocasiões especiais, como casamentos, formaturas e tudo o que seja necessário usar uma roupa de “gala”.

Assim como até hoje, apesar da cultura ocidental estar invadindo o Japão, ainda se usa o tão antigo “tatami” nas casas, com portas de correr feitas de papel, e ainda se usam “futons” para dormir, e “zabutons” para se sentar, mesmo depois de se passar mais de um século desde a queda dos samurais, ainda se usam as mesmas coisas que eram usadas naquela época.

Esse equilíbrio entre o moderno e o tradicional, é que eu considero umas das coisas impressionantes no Japão. O fato de um povo guardar e se orgulhar de sua cultura, o que eles simplesmente chamam de “Wa no kokoro”, que pode ser traduzido como “o coração japonês”, algo que dizem, todo japonês tem dentro de si.

chado

Cerimônia do chá





O que é ser consumidor?

18 05 2009

Olá a todos.

Ontem tive uma conversa interessante com minha esposa, ela é japonesa e de vez em quando me pergunta como funcionam as coisas no Brasil. Confesso que as vezes tenho vergonha de dizer algumas coisas, pois o Brasil se mostra tão injusto e desigual comparado ao Japão, que chega a ser absurdo certas coisas que acontecem em nosso país.

Continuando sobre a conversa, ela me perguntou se no Brasil os serviços e produtos são baratos, pois items alimentícios são bem mais em conta se comparado ao Japão. Expliquei que bens de consumo como eletrodomésticos e carros, são desproporcionalmente caras, levando em conta o poder aquisitivo da população em geral, e como exemplo usei os produtos eletrônicos como exemplo, que custam mais caro que no Japão, mesmo o salário médio no Brasil sendo três vezes menor.

Outra coisa que ela ficou chocada foi o tratamento dado ao consumidor, contei certos casos de total falta de respeito pelo consumidor, principalmente no atendimento público. Na inicativa privada, que deveria ser “melhor” por se tratar de empresas que ganham com a venda de produtos ou prestação de serviços, a situação também não é lá muito animadora, continuo vendo que ainda há muito que melhorar.

Uma pergunta que ela me fez e que também eu me fiz várias vezes a respeito de casos de falta de respeito ao consumidor, era se as empresas se esqueceram de quem é que paga as contas, elas se esquecem que existem, porque existem consumidores, sem consumidores não existe negócio.

No final de toda a explicação, minha esposa chegou a seguinte conclusão, o Brasil é essa bagunça porque não existe regulamentação(grande novidade né?), e falta concorrência também, no Japão, uma empresa que não satisfaz  o consumidor está condenada a quebrar, aqui ninguém vai onde não é bem atendido.

Tentei explicar que apesar de tudo, existem as empresas sérias que fazem tudo para satisfazer o consumidor, mas as que agem de má fé, se sobressaem muito mais no contexto geral, pela propaganda negativa, onde vale a máxima, “falem bem, ou falem mal, mas falem de mim”.

Ainda há muito a ser feito, para que o Brasil atinja o nível de excelência que o Japão atingiu, onde se duas empresas oferecem o mesmo produto, a diferença é tirada no atendimento ao consumidor , ganha quem atende melhor. E espero que um dia, nós brasileiros, cheguemos lá.

Um abraço pessoal.





Os japoneses são frios?

17 05 2009

Olá a todos.

Umas das coisas que nunca tinha me passado pela cabeça, mas que desde criança fazia parte de minha vida, era o fato dos japoneses serem excessivamente reservados. Meu avô, era um japonês típico, calado, turrão, rígido na educação e em seus princípios, não muito hábil em demonstrar seus sentimentos. Mas a sua maneira, demonstrava seu amor pela família.

Isso não me parecia estranho por causa da convivência, e quando vim ao japão, percebi nos japoneses mais velhos o mesmo tipo de comportamento, e em um grau um pouco menor, nos mais jovens.

Como no Brasil tinha poucas referências para entender este tipo de comportamento, não entendia muito bem e achava isso normal, mas chegando aqui comecei a entender melhor o comportamento desse povo.

Com muita curiosidade olhava a maneira dos japoneses se relacionarem uns com os outros. Sempre com muita cerimônia e respeito, parecia que sempre estavam sempre se reverenciando mutuamente, até contava quantas vezes eles se curvavam quando agradeciam algum favor.

Até hoje me parece estranho como eles evitam demonstrar seus sentimentos em público, são raros os casais que andam de mãos dadas, e beijos em público então nem pensar. Em conversas entre casais, mesmo amigos, eles ficam envergonhados quando se falam assuntos como esse. Os amigos não se abraçam, no máximo um aperto de mão, parece até que existe um muro invisível entre eles.

E por causa de tudo isso fica a impressão de que são um povo frio, o que não deixa de ser verdade, se comparado a cultura irreverente dos brasileiros, mas quando visto de um outro ângulo, seria mais um excesso de respeito por parte dos japoneses. No Japão existe um ditado que diz, “tanin doushi, reigi ari”, que quer dizer “entre estranhos, deve existir respeito”, que traduz a maneira que os japoneses encaram a relação com outras pessoas.

Mas apesar das aparências, existem os japoneses que são bem parecidos com os brasileiros, assim como existem os brasileiros que são bem reservados, muito mais parecidos com os japoneses, mostrando que sempre existem as excessões à regra. Mas todos os japoneses, depois de uma longa convivência, acabam se tornando mais abertos, apesar de no começo ser meio estranho, no final eles acabam por se acostumar com qualquer um.

Mas a cultura de um povo é algo que não pode ser mudado, e tudo funcionou muito bem até hoje e assim será por um bom tempo, mas mesmo assim tenho ainda muito o que aprender sobre os japoneses.

É isso aí pessoal, um abraço.





Outra maneira de se casar.

4 05 2009

Olá a todos.

Entre todas as coisas que me deixaram perplexo aqui no Japão, acho que uma das mais estranhas é o casamento. Todos nós brasileiros estamos acostumados com a seguinte imagem do casamento, as pessoas se conhecem, se gostam, e decidem passar o resto da vida juntos, aí surge o casamento como conhecemos.

Mas no Japão, existe uma outra forma de casamento, conhecida como “omiai”, que se parece muito com os casamentos de antigamente, aqueles que eram combinados e arranjados pelos pais das duas partes.

A diferença entre a forma que conhecemos de casamento decidido pelos pais, e o “omiai”, é que no segundo caso, muitas vezes é o próprio candidato ao casamento que procura esse caminho para encontrar uma companheira.

E tudo se parece com uma entrevista de candidatos a emprego, as duas partes recebem algo como um currículo do candidato, e decidem pela melhor escolha, aparencia, idade, salário, família, são itens importantes nessa escolha.

Algo que sempre me pergunto é, como as pessoas podem se casar sem amor? Parece até uma coisa obrigatória, um ato para simplesmente perpetuar a espécie. Antigamente quando vivíamos em uma sociedade patriarcal, isso poderia até parecer normal, mas estamos vivendo uma outra realidade hoje, e me espanta esse tipo de mentalidade ainda muito comum na sociedade japonesa.

Os motivos para tal comportamento são os mais variados, falta de tempo, procura por estabilidade, idade já considerada avançada para se “namorar”, e também pressão por parte da família.

Uma pergunta inevitável é se esse tipo de casamento tem alguma chance de dar certo. Mas para a minha surpresa e de outras pessoas que estão lendo este post, a grande maioria dos casamentos são bem sucedidos, as duas partes acabam se entendendo e tornan-se digamos, “amigos”, o marido trabalha e a esposa cuida da casa e dos filhos, e tudo se ajeita.

Mas apesar de tudo, a grande maioria dos japoneses se casam por amor, como em outros lugares do mundo, e apesar de algumas diferenças culturais, somos afinal todos mais ou menos parecidos.

Em outros posts vou escrever mais um pouco sobre as peculiaridades dos japoneses, um abraço e até lá.





A impagável perda da cultura.

4 05 2009

Olá pessoal.

Durante todos esses anos que vivo no Japão, algo que sempre me chocou foi a cultura do descartável. Como já citei em outro post, essa mania que os japoneses tem de achar que tudo é facilmente substituível, está se tornando um grande problema.

E pensando nisso, me lembrei de um assunto que sempre comento com os japoneses com os quais convivo, o Japão do pós guerra, era um país totalmente quebrado, sem comida ou bens em quantidade suficiente para sua população, mas com muito trabalho duro, chegaram ao padrão de vida atual. Isso é muito bom, quando visto de fora, mas estando aqui, vendo tudo de perto, não deixo de ter uma certa apreensão quanto ao futuro deste país.

A geração que trabalhou duro para levantar o Japão no pós guerra, hoje está envelhecendo, já passa dos 60 anos, e as gerações seguintes vivem em um sonho de um mundo perfeito, onde tudo se consegue de maneira muito fácil, é só pagar que se pode conseguir tudo, eles estão esquecendo o quanto é duro viver. Problemas com o lixo? É só pagar que existe alguma empresa que recolhe. Problemas com a saúde? É só pagar um bom seguro que tudo se resolve. Problema com a educação? É só pagar um bom curso depois, que tudo se resolve. Algo quebrou? É só comprar outro.

Tudo isso, tornou os japoneses um tanto insensíveis, parece que eles não percebem a perda da sensibilidade, da cultura, em meio a tantos produtos, modismos e soluções prontas que é a base de toda a cultura consumista do Japão atual.

E a preocupação que tenho, é compartilhada por muitas pessoas mais velhas com as quais conversei,  eles temem pelo futuro do Japão, pois os jovens de hoje perderam a noção do valor das coisas, pois só conhecem a fartura, e são poucos os que ainda tem o que eles chamam de “hanguri seishin”, que seria em português, algo como a garra daqueles que já sofreram muito.

É triste ver o país de meus antepassados se esquecendo de valores que eram tão importantes, uma cultura milenar se diluindo em meio a loucura da modernidade, e jovens sem identidade, levando o país para um futuro sem uma identidade cultural.

É só por enquanto, um abraço pessoal.





A cultura da aceitação.

23 04 2009

Olá pessoal.

Sei que é um assunto polêmico para os ocidentais, pois nos países de cultura cristã, o homossexualismo é considerado pecado, e não é raro encontrar pessoas com uma visão totalmente preconceituosa sobre o assunto. Creio que isso se deve principalmente a educação cristã em si, pois nos países do oriente, a visão é bem diferente.

Em vários países da ásia, encontramos culturas que aceitam o homossexualismo como algo normal, sem aquela imagem ligada a promiscuidade e a prostituição, que é tão comum na cultura ocidental, e o Japão não é excessão, devido a uma cultura com valores bem diferentes dos ocidentais, percebi uma abordagem totalmente diferente do assunto.

Há muito tempo, vê-se na TV do Japão, artistas que são abertamente homossexuais, na grande maioria homens que assumiram a identidade do sexo oposto, e vez ou outra aparecem outros que são afeminados e tem uma grande popularidade como cantores ou atores, e isso é mostrado sem nenhuma conotação pejorativa, inclusive eles próprios brincam com o fato.

Quando vim ao Japão, sinceramente, na visão estreita das que tinha na época, isso me pareceu um tanto estranho, não que tenha algum preconceito quanto as escolhas de cada um, pois acho que cada um escolhe o caminho que lhe parece melhor, e ninguém tem o direito de dizer o que é certo ou o que é errado. Mas quando se cresce escutando que ser homossexual é uma aberração, que é pecado, que deus e a igreja condenam, acaba-se ficando condicionado a essa idéia, mas ainda bem que tive a oporunidade de conhecer outra cultura com outros valores que me ajudaram a ver tudo de um ponto de vista diferente.

Aqui no Japão, o fato de ser homossexual é uma coisa tão normal que nem crianças nem velhos tem preconceitos acerca disso, é assim e pronto. Como sou curioso e gosto de saber o porque das coisas, procurei saber o porque disso, e me deparei com uma cultura milenar de aceitação do homossexualismo.

Acho que o relato mais comum que encontrei, foram os relatos da época da guerra dos clãs(1493-1573), quando os guerreiros partiam para a guerra, era permitido apenas aos homens acompanhar os batalhões, e sendo assim, os chefes dos clãs sem mulheres para distraí-lo, chamavam os jovens de seu batalhão para beber e se divertir junto com eles.

Outra coisa bastante comum a séculos, são as companhias de teatro, no passado existiam várias delas que viajavam todo o Japão apresentando peças teatrais nas cidades e pequenos povoados, e ainda hoje, o formato das companhias e das peças perdura com poucas modificações, e é muito comum nessas peças que os homens assumam papéis femininos, os atores desde pequenos se maquilam e dançam no papel de mulheres, incorporando perfeitamente o papel feminino.

O contrário também é válido, existe no Japão uma compahia de teatro e dança chamado “Takarazuka Gekidan”, que é uma companhia formada exclusivamente de mulheres, e os papéis masculinos também são todos representados por mulheres, e é um sucesso absoluto, com um público fiel em todo o Japão.

Outra coisa bastante comum são os pubs de travestis, que não são exatamente como os ocidentais estão acostumados a ver, mas apenas lugares onde se vai para beber e conversar, pois os homens muitas vezes gostam da visão que os homossexuais tem da vida, que é uma visão híbrida, nem masculina nem feminina das coisas, e isso ajuda a tirar um pouco do estresse do dia a dia, pois é bom ser compreendido por alguém que conhece os dois lados da moeda.

Mas juntando tudo em um cenário só, eu diria que o Japão é um país sem preconceitos quanto ao homossexualismo, é mais uma prova de que a cultura e a história de um país, pode mudar totalmente o modo de ver de um povo, provando que o preconceito existe nos olhos de quem vê.

É só por enquanto pessoal, um abraço.








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