Medo de esquecer.

12 06 2009

Olá a todos.

Já moro a um bom tempo no Japão e as vezes penso no meu querido Brasil, mas as lembranças que tinha estão cada vez mais desbotadas, tenho consciência que nesse tempo que estou aqui, muita coisa mudou, e tenho certeza que vou me assustar quando voltar.

Digo isso pois morando por vários anos em um outro país, parece que o Brasil, e as pessoas que ficaram lá, ficaram parados no tempo para mim, fico relembrando as coisas, e a imagem que fica é aquela última, de antes de sair do país. Esqueço que as crianças crescem, e vou me assustar ao me deparar com adultos, esqueço que as pessoas envelhecem, e vou me assustar quando encontrar os rostos marcados pelo tempo, e o mais triste, esqueço que o tempo segue adiante, e também leva os mais velhos, e ficarei triste, por saber que nunca mais vou reencontrar alguém querido.

Mas mesmo sabendo de tudo isso, insisto em me apegar a lembranças antigas, saudades de algo que já se foi a muito tempo, mas que me dão a identidade de brasileiro, pois tenho medo de esquecer e perder minhas raízes.

É só por enquanto, um abraço.





Nós, os estranhos.

10 06 2009

Olá pessoal.

Sempre tive minhas dúvidas em relação a presença dos brasileiros no Japão, baseado no convívio que tive com meus avós japoneses, que para mim eram um bom exemplo da cultura dessa terra, e ficava imaginando como uma sociedade formada de pessoas como eles, iriam receber e conviver com os brasileiros.

Em parte estava certo, e em parte errado nas minhas suposições, chegando aqui, vi que nem todos os japoneses são como meus avós, hoje a sociedade japonesa está, como posso dizer, “light”, aquele comportamento rígido que era minha imagem dos japoneses, se mostrou um tanto ultrapassada, eles mudaram muito nas últimas décadas, estão mais tolerantes, mas não muito.

Por outro lado, houve, e ainda há, um constante choque de culturas, nos últimos tempos ouvi mais uma história de problemas que vem do comportamento, e da maneira de pensar dos brasileiros. Um amigo meu estava reunido com outros amigos em seu apartamento, conversando, bebendo e ouvindo música, mas parece que os brasileiros, quanto mais bebem, mais ficam surdos, o som, e o tom da conversa,  já estava em um volume um pouco alto demais, moral da história, os vizinhos chamaram a polícia, e ela veio ensinar um pouco das regras do Japão para os integrantes da festinha.

Os japoneses são um povo muito reservado, isso é um traço da cultura deles, e os brasileiros são barulhentos por natureza, mas parece que os brasileiros se esquecem que não estamos no Brasil, e muitos ignoram a regra de ouro da convivência pacífica, “Em Roma, faça como os romanos. “, algo simples, que se fosse seguido, evitaria muita dor de cabeça para os dois lados.

Mas a grande maioria dos brasileiros nem liga, muitos acham que os japoneses tem que nos aceitar como somos, com nossas virtudes e defeitos, e os japoneses acham que, como estamos no Japão, devemos seguir as regras daqui, pois estamos no país deles. Eu particularmente sou da opinião de que os japoneses estão certos, forçar um convivência entre dois povos tão diferentes, sem um mínimo de colaboração, é algo impossível de sustentar.

Por isso, somos rotulados de estranhos, e assim continuaremos até que todos aprendam que convivência é também colaboração, e não chegar metendo o pé na porta e ir invadindo a casa dos outros e impondo seus costumes.

É isso aí pessoal, até outra.





Em busca do Japão perdido.

5 06 2009

Desde a época em que era criança, tinha uma certa curiosidade pelo Japão, achava incrível o fato de meus avós terem vindo do outro lado do mundo, mas não tive muita vontade de aprender sobre isso, apenas aceitava o fato, e tudo da cultura japonesa que aprendi, foi no dia-a-dia, convivendo com eles e seus hábitos.

Hoje vivendo aqui no Japão, vejo o quanto deixei de aprender com meus avós, acho que minha adaptação teria sido muito mais fácil se tivesse aprendido um pouco mais com eles.

Mas como já não há mais como voltar atrás, tive que me virar sozinho para aprender a língua, e a maioria dos costumes dessa terra, e vez ou outra sinto o quanto meus avós tinham a me ensinar, e agora me pego relembrando alguns hábitos de minha infância, muitas coisas que me foram ensinadas e que nem tinha consciência que eram uma pequena parte da cultura japonesa que me eram passadas.

Hoje vou aos poucos reencontrando o Japão perdido da minha infância, em cada costume que me foi ensinado, na maneira de pensar, de comer, de viver, e sinto uma grande gratidão por meus avós, que mesmo que eu não quisesse, e que depois tenha em parte esquecido, me legaram coisas valiosas que me foram muito úteis quando vim ao Japão, reencontrando em cada canto desse país, o rosto de meus avós.

E tudo hoje é na verdade um reecontro, e muita gratidão por ter tido ao menos uma pequena oportunidade de ter contato com essa cultura, mesmo estando no Brasil.





Estamos sozinhos nessa terra.

4 06 2009

Olá a todos.

Os dias passam e tenho tentado manter a mente ocupada para não ficar pensando besteira, e fico aqui pensando na visão que tenho do Japão e na vida que os brasileiros levam aqui, são muitas as diferenças e as dificuldades, quando se vive em uma terra tão estranha.

Uma coisa que achei muito estranho, foi  a falta de união que existe entre os brasileiros que vivem no Japão, entre as comunidades de estrangeiros que conheci aqui, fora algumas excessões, nossa comunidade brasileira é a mais desunida, justamente nós que temos fama de sermos sociáveis e calorosos, será que é culpa da cultura do cada um por si e deus pra todos?

Nas fábricas onde há brasileiros, sempre existem as panelinhas, os fuxicos, e aqueles que querem puxar o tapete dos outros para se sobressair, e não são poucos os casos, cada brasileiro que encontrei, tem pelo menos duas ou três estórias pra contar de casos assim, de brigas por causa de nada, e juras de vingança quando voltar ao Brasil. O que há de errado conosco?

Não sei se isso é em parte um reflexo de nossa estada temporária no Japão, que torna as relações um tanto superficiais, ou se realmente nos tornamos um bando de convencidos, que não ligam pra ninguém, pois me lembro que no Brasil, as coisas eram diferentes, lá ao menos, existia um pouco de calor humano, coisa que por aqui é cada vez mais rara.

Em um país em que quem ganha mais pode mais, acabamos por nos deixar envenenar pela inveja, inveja de um carro melhor, de um apartamento melhor, de um domínio da língua melhor, de um status melhor com o chefe, tudo coisas que são na verdade passageiras, pois voltando ao Brasil, tudo não passará de uma lembrança.

Mas continuamos nos degladiando por causa disso, pois nos falta a consciência, de que somos brasileiros nessa terra, e devíamos nos ajudar ao invés de ficar tentando pisar em cima dos outros.

Mas é essa a realidade, enquanto uns rosnam outros riem, e assim nossa vida no Japão continua.

É isso aí, um abraço.





A imagem do país.

1 06 2009

Olá a todos.

Você se preocupa com a imagem do seu país?

Entre várias coisas que sinto de diferente entre o Japão e o Brasil, é a imagem que os japoneses tem de seu país e de sua cultura.

Aqui no Japão vejo sempre na TV, que é um ótimo termômetro da cultura em qualquer país, uma tendência a sempre valorizar o Japão em si. São programas mostrando vários lugares do país, com um apelo para um turismo rápido, com dicas gastronômicas e um pouco da história do lugar.

Os programas desse tipo, e outros que mostram muito da cultura e história de vários lugares do país, são coisas que gosto muito, pelo fato de mostrarem bastante a cultura, e também o cuidado e o orgulho que os japoneses tem com sua história. Algumas vezes, são locais onde não existe nada de muito especial, apenas um monumento mostrando que naquele lugar nasceu uma figura ilustre, mas a TV faz questão de mostrar a todos os expectadores que esse lugar existe.

Outras vezes mostram estabelecimentos comerciais que preparam um prato típico da região, e algo que sempre é citado é o fato do estabelecimento ter sido fundado a 100, 200 anos, e existem até aqueles que tem 400 ou 500 anos de história, e percebe-se o orgulho das pessoas em mostrar que continuam dando continuidade a uma tradição centenária.

E também existem os programas que mostram os artesãos japoneses com sua arte também centenária, e é sempre frisado que o artesão atual é o nono, décimo, ou vigésimo de uma linhagem de artesãos, com uma arte que é passada de pai para filho, e todo esse artesanato é na verdade um legado cultural sem preço.

E fora outros tantos programas mostrando as biografias de personagens famosos do Japão, desde samurais até pintores e escritores, ou qualquer figura que tenha contribuído de alguma forma para o enriquecimento da cultura no Japão.

Tudo isso me fez sentir que os japoneses são um povo que gosta de seu país, de sua cultura, e fazem questão de lembrarem isso no dia-a-dia, e não é raro escutar na TV frases como, “como é bom ser japonês”, ou então, “que bom ter nascido no Japão”. E todas são frases que demonstram o orgulho que tem de sua pequena ilha e de sua história.

Eu sendo brasileiro de nascença, apesar de ser neto de imigrantes japoneses, sinto uma certa inveja disso tudo, pois o meu país, que apesar de tudo o que há de errado nele, é um país maravilhoso, com uma cultura rica e um povo hospitaleiro, mas que não tem uma boa imagem de seu país, não são raras as opiniões de que o Brasil não tem jeito, de que o problema é a corrupção, a impunidade, e outros lugares comuns que de tanto ouvir, acabamos por ficar anestesiados. E acabamos por não mais enxergar o grande potencial que existe dentro do Brasil, mas se começarmos a enxergar as coisas com outros olhos, de repente  tudo pode mudar.

Como sempre digo, ainda tenho muito que aprender por aqui, um abraço pessoal.








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