Outra vez sobre a crise.

28 03 2009
crise1

A coisa tá feia

Mais uma vez volto a falar sobre a crise aqui nesse blog, mas fazer o que, esse é o assunto que tem agitado o Japão e o mundo nos últimos tempos.

Por aqui, as coisas não mudaram muito, ainda há muitos desempregados, e eu me incluo nesse grupo ainda, e ainda há uma tendência das coisas piorarem se o governo não acelerar as medidas para aquecer a economia.

E sobre a crise no Japão? Quando o Japão vai sair dessa?

Sobre essas perguntas, as opiniões ainda são muito diversas, há especialistas dizendo que vai piorar, há outros que dizem que vai melhorar, e há os que não tem previsão nenhuma, é esperar para ver.

Vamos começar pelas boas notícias, o pacote de incentivo do governo japonês, que no início foi muito criticado, finalmente começou a entrar em vigor, e com o anúncio de um aumento na verba de incentivo, feito pelo governo japonês na reunião do G20, deu um novo ânimo ao mercado de ações, mas por enquanto aqui embaixo onde está a grande maioria da população, ainda não se sentiu efeito nenhum. Mas isso não deixa de ser uma boa notícia nessa depressão que tem assolado o Japão nesses últimos tempos, e ao menos por enquanto houve uma refreada na queda livre em que se encontra a economia.

Agora as más notícias, a queda na produção das empresas está se fazendo sentir no mercado de consumo. Com as vendas em baixa as fábricas estão diminuindo as horas de trabalho e em consequência os trabalhadores ganham menos, e ganhando menos, gastam menos e aí se criou um círculo vicioso que no momento só tende a aumentar. O setor de serviços era o único que ainda se mantinha estável, mas como o dinheiro está parando de circular há uma retração maior vindo por aí. E ainda há o tão temido fim do ano fiscal, que virá com uma nova onda de desemprego e falências.

O que mais assusta nesse cenário todo, não só aqui no Japão mas em todo o mundo, é o movimento protecionista que se alastra por toda a parte, a Comunidade Européia começou dificultar a colocação de estrangeiros no mercado de trabalho, uma medida polêmica, mas como o xenofobismo é sempre o sintoma clássico nesses casos, já era de se esperar que algo assim aconteceria. Aqui no Japão as coisas ainda não chegaram a esse extremo, mas cedo ou tarde vai começar, pois é uma tendência natural dos países tentar proteger seus cidadãos.

Entre boas e más notícias, uma coisa continua sendo válida, nós que estamos aqui, devemos nos preparar da melhor maneira possível para poder competir no mercado de trabalho. Como sempre digo a todos, a importância de falar a língua da terra em que se vive, a importância da comunicação, do respeito pelos costumes, da aceitação da cultura, tudo é válido para se melhorar as chances de encontrar um emprego, e também melhorar a qualidade de vida.

É isso aí, até outra.





O país do descartável.

27 03 2009
lixo

"Montanha de lixo"

Olá pessoal.

Lembro-me de um amigo meu dizendo a frase, “Os japoneses são um povo perdulário.”. Na época nem tinha me dado conta da verdade contida nessa frase, pois aos meus olhos de refugiado econômico do terceiro mundo, o Japão se mostrava um lugar de abundância. Mas passada a fase de deslumbramento comecei a entender o sentido dessa frase.

Quando cheguei aqui costumávamos ver nas ruas, nos dias de lixo de grande porte, “montanhas” de lixo, que antes da lei de reciclagem, eram colocados na rua, em um lugar próprio para recolhimento. E nessas “montanhas” de lixo, na maioria produtos eletrônicos, que ocupavam metade da rua, encontrávamos de tudo desde aparelhos de vídeo até geladeiras e máquinas de lavar. Não que os aparelhos estivessem com defeito e eram jogados fora, mas simplesmente porque o dono comprava um novo e não tendo espaço em sua casa, simplesmente jogava fora o aparelho “velho”.

Isso soa absurdo? Claro que sim, é uma coisa sem cabimento, jogar uma TV ou um aparelho de som depois de 2 ou 3 anos de uso. Várias pessoas que conheci já recolheram coisas no “lixo”, que eram perfeitamente funcionais ainda, televisores, geladeiras, aparelhos de som, aparelhos de vídeo, máquinas de lavar, aspiradores, forno microondas, móveis, bicicletas, e por aí vai, com um pouco de “garimpagem” nas “montanhas”, mobiliava-se uma casa inteira.

O Japão a algum tempo atrás sofria da grande doença do capitalismo chamada, consumismo desenfreado, não se consertava nada, não se dava valor à nada, era mais fácil comprar um novo e os problemas eram resolvidos. Hoje em dia as coisas se acalmaram, a lei de reciclagem começou a taxar o lixo eletrônico e as pessoas começaram a pensar mais na hora de trocar, mas a mentalidade do “descartável” está enraizada na sociedade japonesa moderna, hoje em uma escala menor, mas ainda se joga fora as coisas que não são mais interessantes.

A alguns anos, lembro-me de um comercial de TV, veiculado pelo governo, que dizia, “Quando nós japoneses deixamos de consertar e começamos a jogar fora? Pense nisso.”, que era uma tentativa de conscientizar as pessoas do absurdo do consumismo, que estava criando um problema ambiental de toneladas de lixo todos os dias, e o Japão, com uma área territorial pequena, já não tinha como processar uma quantidade tão grande de lixo.

É uma pena que este tipo de mentalidade tenha tomado conta do Japão, pois antigamente existia a idéia, vinda do budismo, de que os objetos também tem uma alma, como os seres humanos, e é preciso respeitar essa “alma” e usar os objetos com zelo e gratidão, pois eles estão a nosso serviço.

Ainda hoje o mundo moderno seduz os japoneses para consumir mais e mais, mas graças a longa recessão e a tendência ecológica dos dias atuais, os japoneses, me parece, estão aos poucos voltando a entender o verdadeiro valor das coisas, as lojas de usados tem se multiplicado e as pessoas estão aprendendo que reciclar, significa também, utilizar novamente o mesmo objeto.

Mas quem sabe no futuro, todos voltem a usar as coisas com um sentimento maior de gratidão, e a palavra “Mottainai”, que significa desperdício em japonês, volte a ter o significado que tinha antigamente.

É isso aí pessoal, por hoje é só.

Um abraço.





Nossa língua portuguesa?

26 03 2009

Pergunta

Depois de muito tempo aqui no Japão, começo a sentir muita falta da língua portuguesa, não aquela falada hoje pelos brasileiros que estão aqui, mas aquela que me lembro, ouvida no dia-a-dia lá no Brasil, aquela língua cheia de variações e nuances que era diferente para cada pessoa que conversava, desde o engraxate até o gerente do banco.

Aqui tenho visto uma constante diminuição do vocabulário das pessoas. O fato de se conviver em um ambiente de poucas pessoas, brasileiros eu quero dizer, e o fato também de se falar sempre sobre os mesmos assuntos dentro das fábricas, mais a falta do hábito da leitura, vai tornando o vocabulário das pessoas um tanto limitado.

Todas estas coisas juntas vão aos poucos minando o vocabulário já um tanto pobre, tornando-o limitado ao ponto de não se conseguir lembrar de palavras corriqueiras usadas no dia-a-dia, mais de uma vez em conversas entre amigos ouvi a frase, “como é que se falava isso em português mesmo?”, ou então as pessoas sem se dar conta, acabam misturando palavras da língua japonesa no meio de frases, para tapar os buracos causados pelo esquecimento dos termos em português.

Mas apesar de tudo defendo a idéia de que é necessário um auto-policiamento forte, para não se cair na armadilha de misturar os dois idiomas, pois automaticamente nos expressamos da maneira que o meio se expressa, ou seja se todos falam errado, ou com um vocabulário muito restrito, acabamos por nos deixar contaminar também. Claro que isso é um efeito da mescla de culturas e chega a ser inevitável, mas na medida do possível gostaria que brasileiros praticassem ao menos falar o português e se orgulhassem de nossa língua que é tão rica e melodiosa.

Apesar de tudo posso estar vendo o nascimento de um novo dialeto derivado da mistura do japonês e do português. Infelizmente essa pode ser a realidade vivida por nós, perdidos aqui do outro lado do mundo.

Por hoje é só, qualquer opinião, deixe um comentário.

Um abraço.





Viver Digital.

23 03 2009

Olá pessoal.

Hoje tive uma agradável surpresa, ouvindo um de meus podcasts preferidos o Viver Digital, tive este blog citado pelo Renato Castilho, um dos podcasters, é interessante como estando aqui no Japão, e graças a internet, muitas vezes conseguimos encontrar e nos comunicar com pessoas que nunca encontraríamos de outra forma.

Para aqueles que gostam de um bom bate-papo, Renato Castilho, Adilson J. Casas, Alexandre Recco e Jaílson Blum, comandam um podcast descontraído, e sem se prender a nenhum assunto específico, bom pra lembrar que o Brasil está mais próximo do que imaginamos.

Fica aqui a dica. Um abraço.





O choque de culturas.

15 03 2009

Olá pessoal, vou continuar falando sobre as diferenças culturais.

Nas fábricas aqui no Japão, tive a oportunidade ver muitos casos de mal-entendidos devido as diferenças entre o modo de pensar dos japoneses e brasileiros.

O brasileiro tem o hábito devido a cultura, de pensar por si mesmo e ir dando um jeito em tudo, enquanto os japoneses geralmente esperam uma ordem para se moverem, e isso muitas vezes faz com que os brasileiros sejam vistos como indisciplinados, algumas vezes por não entenderem uma ordem direito e logo partirem para a ação e fazerem errado, outras vezes por acharem que isto ou aquilo não está bom e tentarem arrumar do seu jeito. Isso muitas vezes não é aceito pelos chefes, pois na cabeça dos japoneses, é necessário cumprir uma norma não dita, na qual quem manda é seu superior e é necessário passar pelas fases de comunicar, explicar, receber a autorização e só depois partir para a execução.

O interessante é que mesmo o resultado sendo positivo, os chefes costumam dizer que precisam ser avisados em primeiro lugar. Aí é que vejo a diferença entre as culturas, o brasileiro tem por cultura uma atitude mais complacente com as coisas, tanto no trabalho como na vida. Em contrapartida, os japoneses por cultura são um povo que se organiza coletivamente para tudo, por isso há sempre a necessidade da hierarquia, de um líder, e é sempre bem demarcada a linha entre líderes e liderados.

Já ouvi comentários de brasileiros como “porque tenho que obedecer um cara mais burro que eu?” ou “que cara mais burro, não sei como chegou a chefe.”, comentários típicos de vários brasileiros que conheci.

Por outro lado também já ouvi desabafos dos chefes como “porque ele nunca escuta o que falo?” ou “porque tenho que repetir sempre a mesma coisa?”

Nós os brasileiros não temos disciplina ou os japoneses não tem tolerância?

Acho que nenhum dos dois, o que existe é a falta de conhecimento e compreensão mútuas, e também os dois lados costumam generalizar a maneira de se verem. Tanto aqui no Japão como no Brasil existem hábitos e regras que devem ser seguidas para uma convivência pacífica.

Praticamente a história da comunidade brasileira no Japão ainda é muito recente e acho que ainda há muito a ser feito para que possamos, japoneses e brasileiros, nos entender.

É isso aí, um abraço pessoal.





Sobre brasileiros e a crise no Japão.

14 03 2009

Alguns dias atras, para minha surpresa, tive meu post  “A falta de preparo.“, citado em um artigo sobre a crise no Japão.

O artigo “Japan, Brazil: Crisis puts an end to the dream of a better life.“(Japão, Brasil: Crise põe fim ao sonho de uma vida melhor.), escrito por Paula Góes, o artigo está em inglês.

Achei interessante saber que existem pessoas fora do eixo Brasil/Japão, que se importam em divulgar a situação passada pelos brasileiros na crise atual.





Analfabeto? Eu?

9 03 2009

Tabela de horário de ônibus.

Tabela de horário de ônibus.

Olá a todos os poucos leitores do meu blog.

Tive a idéia de escrever este post porque acho que para nós que somos alfabetizados é difícil imaginar a dificuldade que passa uma pessoa analfabeta.

Quando vim para o Japão me deparei com um país completamente estranho, do qual eu conhecia um pouco da cultura mas nada da língua nem da escrita. No começo não me importava muito com isso pois na minha cabeça eu ainda estava em fase de adaptação e tudo acabaria se ajeitando com o tempo.

Mas passado esse período, comecei a me sentir incomodado, começaram a aparecer as dificuldades.

Fui ao banco e não conseguia sacar dinheiro no caixa-eletrônico, pois não conseguia ler as instruções, e me perguntava onde diabos estava o botão de sacar. Não conseguia comprar uma passagem de trem pois não conseguia ler o nome do destino na tabela de preços. Indo ao supermercado não sabia diferenciar o sal do açúcar! Claro, está escrito na embalagem mas não sabia ler, aí é que caiu a ficha, eu era um analfabeto, um completo analfabeto nessa terra estranha de uma escrita estranha.

As  coisas mais comuns que estamos acostumados a ver como a embalagem de algum produto, as placas das lojas, jornais, revistas, cardápios de lanchonetes e restaurantes, o nome de uma estação de trem, o destino de um ônibus, tudo era uma incógnita, um amontoado de símbolos estranhos sem sentido algum.

Interface de caixa eletrônico.

Interface de caixa eletrônico.

Na fábrica onde trabalhava as pessoas usavam crachás com o nome escrito, mas que para mim também não faziam sentido algum, as vezes queria perguntar algo mas não sabia como começar, pois não conseguia ler o nome nem o cargo da pessoa.

Banco, correio, prefeitura, lugares onde era necessário preencher papéis eram um suplício, aqueles formulários todos escritos em japonês e eu tendo que perguntar onde se escrevia o quê, e perguntando se podia escrever em letras romanas pois não sabia escrever em japonês, e as pessoas olhando para mim com uma expressão de perplexidade, pois pareço um japonês mas era analfabeto, e para eles isso é um tanto inusitado.

Lembro que evitava ir a restaurantes que não tinham um cardápio com fotografias, pois não conseguia ler, e claro, não conseguia fazer o pedido, mais de uma vez entrei e logo saí de um restaurante depois de ver o cardápio. E por isso, acabava indo muito ao MacDonald’s e ao Kentucky, pois era só apontar para a foto no cardápio e levantar o dedo fazendo sinal de um e o pedido era logo compreendido. Contei esse caso uma vez  a um japonês e ele me disse, “agora compreendo porque os estrangeiros vão tanto ao fast-food, não conseguem ler o cardápio, nunca havia  pensado nisso.” Quanta comida ruim tive que comer pelo simples fato de não saber ler um cardápio.

E depois de ter passado muito aperto e muita vergonha, começei a entender a dificuldade passada por uma pessoa que não sabe ler e escrever, gestos que para nós brasileiros no Brasil, podem parecer algo nato, é tão natural que temos a impressão de que já nascemos sabendo, e nos custa entender o drama dos excluídos, daqueles que não tiveram a oportunidade de ter o mínimo de instrução para ao menos escrever o próprio nome.

O analfabetismo é algo que deve ser erradicado, pois todo ser humano deve ter o direito ao mínimo de dignidade, sem ter que ficar perguntando o que está escrito ou passando a vergonha de ter que dizer “não sei ler” ou “não sei escrever”.

Vou terminando por aqui, se quiserem deixem um comentário.

Um abraço.