Declarado estado de histeria.

22 05 2009

Olá a todos.

Nas últimas duas semanas o Japão tem estado em polvorosa por causa dessa onda de influenza H1N1 que finalmente chegou às terras nipônicas, é incrível como um país pode se tornar um inferno de uma hora para outra.

Com os recentes casos que são cada vez mais frequentes, o governo japonês entrou em estado de alerta, e a população, que vive acostumada com uma rotina na qual parece que nada no mundo pode afetá-los, finalmente está tomando consciência de que ninguém está imune a nada nesses tempos de globalização.

O mais incrível é que novamente vejo uma histeria generalizada tomando conta dos japoneses, da mesma forma que aconteceu com a SARS e a gripe aviária da China. A falta de informação e outras várias informações incompletas levam a um medo muitas vezes exarcebado. O estoque de máscaras e desinfetante para as mãos, tem se esgotado, não em questão de horas, mas em menos de uma hora, nas cidades em que se encontram pessoas infectadas. E mesmo o governo tendo colocado a disposição da população, centros de informação para tirar dúvidas, há aqueles que ligam para perguntar as coisas mais absurdas, e olha que alguns tem muita imaginação.

Por exemplo, algumas pessoas ligaram dizendo que apertaram a mão de um estrangeiro, e se havia algum perigo de contágio por causa disso. Outras em um caso mais recente na epidemia que se alastra por Kobe e Osaka, ligaram para perguntar se seria seguro receber correspondência que provinha desses locais. E há pessoas comprando via internet, remédios contra influenza que são proibidos no Japão.

Fora que em algumas cidades estão declarando fechamento de escolas, cancelamento de casamentos, shows e eventos esportivos, tudo para evitar a aglomeração de pessoas, e algumas empresas estão obrigando seus funcionários a trabalhar com máscara, para evitar uma contaminação que em muitos lugares, ainda nem existe.

A verdade por trás de tudo é que o Japão, com sua alta concentração populacional, é um lugar muito difícil de se barrar uma doença como essa, e as dores de cabeça do ministério da saúde do Japão, estão apenas começando.

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Onde isso vai parar.

20 05 2009

Olá pessoal.

Encontrei ontem uma notícia no site do G1, que me deixou preocupado, a xenofobia, que é um comportamento considerado normal em tempos de crise, está começando a tomar forma também no Japão.

Enquanto vivemos na incerteza do amanhã aqui no Japão, me parece que este país está tentando tornar os estrangeiros responsáveis por uma parte da crise atual, de repente nos tornamos “persona non grata” neste país.

E o mais incrível de tudo é que internamente, não há nenhuma informação sobre as declarações da reportagem, eles simplesmente omitem dos noticiários qualquer informação que possa ser constrangedora para o governo japonês. O governo japonês, despachando os brasileiros? Mentira, não ouvi uma só palavra na TV nem nos jornais. Essa é a reação dos japoneses, eles preferem fechar os olhos para os problemas, pois o que os olhos não veem o coração não sente.

Pior para nós os descendentes, que temos tanta afinidade com essa terra, pois achamos que somos como irmãos que vieram de fora e seríamos aceitos facilmente, ledo engano, pois quando a coisa aperta ouvimos afirmações cínicas de políticos que  não sabem o quanto é sofrido viver e trabalhar em um país estranho. Na época em que o Japão precisava de mão de obra e os jovens desse país não queriam trabalhar em serviços pesados e sujos, viemos e demos nossa contribuição, e agora que não somos mais necessários simplemente somos convidados a nos retirar.

E a sociedade no geral, simplesmente ignora esse fato, pois com uma mídia manipulada, não se tem conhecimento de nada, nem desse “incentivo” do governo para a retirada dos estrangeiros, nem das afirmações polêmicas de alguns políticos, a xenofobia está se tornando um cinismo deslavado, e nós as “vítimas” disso, somos obrigados a aceitar tudo sem discutir.

E sobre essa idéia de “exigir o conhecimento do idioma japonês para a liberação do visto”, eu duvido que metade dos estrangeiros passe em qualquer prova que o governo venha a exigir, e principalmente os que estão faz pouco tempo no país, pois muitas províncias e prefeituras não tem um programa que ajude o estrangeiro a se integrar a comunidade japonesa. Simplesmente muitos apontam dizendo isto ou aquilo é errado, mas não fazem muito para ensinar os costumes e as regras da vida no Japão. Simplesmente fecham os olhos para o fato de que não vivemos de graça aqui, também pagamos impostos como qualquer japonês, tudo o que eles pagam nós brasileiros também pagamos, e agora somos simplesmente convidados a nos retirar, como se o tempo em que estivemos aqui, fosse um favor gratuito feito pelo governo japonês.

Por isso me pergunto, onde é que vai parar tudo isso, o cinismo de um governo que agora quer lavar as mãos, quando vê que não há como arrumar facilmente uma colocação para os estrangeiros, mais a xenofobia de um povo, que acha que todos os problemas serão resolvidos apenas ignorando a presença desses estrangeiros do seu quintal.

E assim caminha o Japão nos dias de hoje.





Frágil equilíbrio.

19 05 2009
Akihabara

Akihabara

O Japão é um país interessante, enquanto se vive a loucura da vida hi-tech no dia-a-dia, com a nata da alta tecnologia como televisores, celulares, games e carros modernos, existe um outro Japão que parece ter parado no tempo.

É interessante ver o contraste entre a modernidade, que insiste em invadir todos os lugares, e a cultura e a tradição, que insistem em sobreviver em meio a tudo isso.

As vezes andando no meio de uma metrópole, deparamos com um templo budista, incrustado em meio aos prédios, totalmente deslocado em meio a paisagem moderna. Assim como vemos monges budistas com o mesmo tipo de roupa usado durante séculos, coisa muito fácil de se perceber pelos desenhos antigos em que aparecem.

Assim como não é raro ver pelas ruas de vez em quando, mulheres trajando “kimonos”, que são roupas de um estilo que vem de vários séculos. São roupas usadas em ocasiões especiais, como casamentos, formaturas e tudo o que seja necessário usar uma roupa de “gala”.

Assim como até hoje, apesar da cultura ocidental estar invadindo o Japão, ainda se usa o tão antigo “tatami” nas casas, com portas de correr feitas de papel, e ainda se usam “futons” para dormir, e “zabutons” para se sentar, mesmo depois de se passar mais de um século desde a queda dos samurais, ainda se usam as mesmas coisas que eram usadas naquela época.

Esse equilíbrio entre o moderno e o tradicional, é que eu considero umas das coisas impressionantes no Japão. O fato de um povo guardar e se orgulhar de sua cultura, o que eles simplesmente chamam de “Wa no kokoro”, que pode ser traduzido como “o coração japonês”, algo que dizem, todo japonês tem dentro de si.

chado

Cerimônia do chá





O que é ser consumidor?

18 05 2009

Olá a todos.

Ontem tive uma conversa interessante com minha esposa, ela é japonesa e de vez em quando me pergunta como funcionam as coisas no Brasil. Confesso que as vezes tenho vergonha de dizer algumas coisas, pois o Brasil se mostra tão injusto e desigual comparado ao Japão, que chega a ser absurdo certas coisas que acontecem em nosso país.

Continuando sobre a conversa, ela me perguntou se no Brasil os serviços e produtos são baratos, pois items alimentícios são bem mais em conta se comparado ao Japão. Expliquei que bens de consumo como eletrodomésticos e carros, são desproporcionalmente caras, levando em conta o poder aquisitivo da população em geral, e como exemplo usei os produtos eletrônicos como exemplo, que custam mais caro que no Japão, mesmo o salário médio no Brasil sendo três vezes menor.

Outra coisa que ela ficou chocada foi o tratamento dado ao consumidor, contei certos casos de total falta de respeito pelo consumidor, principalmente no atendimento público. Na inicativa privada, que deveria ser “melhor” por se tratar de empresas que ganham com a venda de produtos ou prestação de serviços, a situação também não é lá muito animadora, continuo vendo que ainda há muito que melhorar.

Uma pergunta que ela me fez e que também eu me fiz várias vezes a respeito de casos de falta de respeito ao consumidor, era se as empresas se esqueceram de quem é que paga as contas, elas se esquecem que existem, porque existem consumidores, sem consumidores não existe negócio.

No final de toda a explicação, minha esposa chegou a seguinte conclusão, o Brasil é essa bagunça porque não existe regulamentação(grande novidade né?), e falta concorrência também, no Japão, uma empresa que não satisfaz  o consumidor está condenada a quebrar, aqui ninguém vai onde não é bem atendido.

Tentei explicar que apesar de tudo, existem as empresas sérias que fazem tudo para satisfazer o consumidor, mas as que agem de má fé, se sobressaem muito mais no contexto geral, pela propaganda negativa, onde vale a máxima, “falem bem, ou falem mal, mas falem de mim”.

Ainda há muito a ser feito, para que o Brasil atinja o nível de excelência que o Japão atingiu, onde se duas empresas oferecem o mesmo produto, a diferença é tirada no atendimento ao consumidor , ganha quem atende melhor. E espero que um dia, nós brasileiros, cheguemos lá.

Um abraço pessoal.





Os japoneses são frios?

17 05 2009

Olá a todos.

Umas das coisas que nunca tinha me passado pela cabeça, mas que desde criança fazia parte de minha vida, era o fato dos japoneses serem excessivamente reservados. Meu avô, era um japonês típico, calado, turrão, rígido na educação e em seus princípios, não muito hábil em demonstrar seus sentimentos. Mas a sua maneira, demonstrava seu amor pela família.

Isso não me parecia estranho por causa da convivência, e quando vim ao japão, percebi nos japoneses mais velhos o mesmo tipo de comportamento, e em um grau um pouco menor, nos mais jovens.

Como no Brasil tinha poucas referências para entender este tipo de comportamento, não entendia muito bem e achava isso normal, mas chegando aqui comecei a entender melhor o comportamento desse povo.

Com muita curiosidade olhava a maneira dos japoneses se relacionarem uns com os outros. Sempre com muita cerimônia e respeito, parecia que sempre estavam sempre se reverenciando mutuamente, até contava quantas vezes eles se curvavam quando agradeciam algum favor.

Até hoje me parece estranho como eles evitam demonstrar seus sentimentos em público, são raros os casais que andam de mãos dadas, e beijos em público então nem pensar. Em conversas entre casais, mesmo amigos, eles ficam envergonhados quando se falam assuntos como esse. Os amigos não se abraçam, no máximo um aperto de mão, parece até que existe um muro invisível entre eles.

E por causa de tudo isso fica a impressão de que são um povo frio, o que não deixa de ser verdade, se comparado a cultura irreverente dos brasileiros, mas quando visto de um outro ângulo, seria mais um excesso de respeito por parte dos japoneses. No Japão existe um ditado que diz, “tanin doushi, reigi ari”, que quer dizer “entre estranhos, deve existir respeito”, que traduz a maneira que os japoneses encaram a relação com outras pessoas.

Mas apesar das aparências, existem os japoneses que são bem parecidos com os brasileiros, assim como existem os brasileiros que são bem reservados, muito mais parecidos com os japoneses, mostrando que sempre existem as excessões à regra. Mas todos os japoneses, depois de uma longa convivência, acabam se tornando mais abertos, apesar de no começo ser meio estranho, no final eles acabam por se acostumar com qualquer um.

Mas a cultura de um povo é algo que não pode ser mudado, e tudo funcionou muito bem até hoje e assim será por um bom tempo, mas mesmo assim tenho ainda muito o que aprender sobre os japoneses.

É isso aí pessoal, um abraço.





O custo Japão.

16 05 2009

Olá a todos.

Muitas pessoas imaginam que viver no Japão, é como viver em um conto de fadas, ganha-se muito dinheiro e vive-se confortavelmente sem qualquer dificuldade.

Em parte isso é verdade, existe a estabilidade que não existe no Brasil, os impostos são justos e a qualidade de vida é bem melhor, mas existe também, várias outras coisas que não são levadas em conta, quando as pessoas imaginam a vida no Japão.

Um dos mitos, é que se ganha muito bem por aqui. Não vou dizer que é mentira, se comparado ao Brasil onde ganha-se uma miséria para sobreviver, no Japão ao menos, existe uma padronização de renda que não existe no Brasil.

Mas apesar do salário alto, na média de 2,000 dólares por mês, o custo de vida aqui é muito alto. Para se ter um padrão de vida aceitável no Japão, gasta-se mais ou menos 1,500 dólares por mês. Um simples apartamento que não chega a ter 50 metros quadrados de área, custa na média 600 dólares por mês, a conta de energia elétrica chega a 120 dólares por mês, a conta com alimentação de um casal pode passar de 500 dólares por mês. Isso sem contar outros gastos como carro, telefone, internet e outros penduricalhos de nossa vida moderna.

Por tudo isso, as pessoas que acham que vivemos no céu, não se enganem, tudo tem um preço, e no Japão, ganha-se mais para poder pagar tudo isso, que custa muito mais caro que no Brasil.

Um abraço e até outra pessoal.





É duro ser estrangeiro.

15 05 2009

Olá pessoal, ultimamente não tive muito ânimo para escrever nada para este blog, mas resolvi me mexer um pouco, e tirar a poeira de cima do teclado, que já estava acumulando, desculpem pela demora, e vamos lá.

Essa semana, fui novamente a agência de empregos do governo(Hello Work), para tentar encontrar um emprego.

Tive uma conversa com um dos funcionários da agência, para ver que tipo de emprego seria melhor para o meu perfil. Mas infelizmente não tive sorte dessa vez, os empregos estão cada vez mais escassos, e as empresas estão cada vez mais exigentes na seleção dos candidatos.

Um dos motivos pelo qual os empregos para estrangeiros estão escassos, é o excesso de mão de obra no mercado, não apenas estrangeiros, mas também japoneses, outro agravante é a falta de empresas que estão dispostas a contratar um estrangeiro para trabalhar.

Isso pode soar como discriminação, mas não seria exatamente isso, os brasileiros que estão procurando trabalho hoje, ainda pensam em sua estada no Japão como algo temporário, não pensam em morar no Japão, isso mesmo estando aqui a dez, quinze anos, a maioria pretende voltar ao Brasil “um dia”. Isso para uma empresa japonesa, é muito difícil de se lidar, como contratar uma pessoa que pode de repente ir embora para o Brasil? A empresa que conta com esse funcionário no seu quadro, pode perder todo o investimento feito no treinamento, e pode ter seu quadro desfalcado sem ter tempo para repor um funcionário mais especializado, o que pode gerar muitos transtornos.

Não condeno as empresas por esse tipo de pensamento, creio que elas estão no direito de escolher o que é melhor para a sobrevivência da empresa, mas não deixo de ter um pouco de mágoa, por pensar que somos todos tratados de maneira diferente por sermos estrangeiros.

Me parece que o caminho para se resolver o problema dos brasileiros que eram trabalhadores temporários, ainda tem muito a ser feito, por um lado a desconfiança de um mercado de trabalho que não conhece a mão de obra brasileira e um governo que não sabe como lidar com o grande número de desempregados que abarrotam as agências de emprego. E por outro lado os brasileiros desempregados, que em sua grande maioria não fizeram muito para tentar se adaptar ao Japão, e agora não conseguem se adaptar ao sistema imposto pela crise que afeta o Japão e o mundo.

É isso aí pessoal, um abraço e até outra.