Preconceito ou não?

3 06 2009

Olá a todos.

Tem horas que fico de saco cheio dessa terra, principalmente quando fica evidente alguma diferenciação pelo fato de ser brasileiro.

Quem está lendo meu blog, pode perguntar o porque dessa minha afirmação, pois na maioria de meus posts, procuro mostrar o Japão, e os japoneses, não com seres de outro planeta, mas como pessoas comuns, da maneira que eu vejo.

Mas tem horas que não dá, principalmente quando vou procurar um emprego, sinto que muitas vezes sou visto como um estorvo, aquela velha mania dos japoneses pensarem que por eu ter vindo de um país pobre, também sou intelectualmente pobre, sem capacidade de executar um trabalho que porventura me seja ordenado.

Tudo bem, até entendo o lado deles, se você vai contratar alguém para trabalhar, é até normal que queira o melhor, o mais preparado, mas sem nem mesmo procurar saber qual é a capacidade do candidato, já ir dizendo que o trabalho é difícil, que não sabe se você vai se adaptar, que pode ter problema com a língua, e outras afirmações que demonstram que o entrevistador está claramente duvidando de sua capacidade, justamente pelo fato de ser brasileiro, são coisas que não suporto.

Digo isso, não por me achar melhor que os outros, mas por ter me preparado, aprendido a língua, os costumes e a cultura dessa terra, e creio que nesse quesito, não devo nada a ninguém. Mas sempre acabo batendo de frente com essa barreira, que é o fato dos japoneses acabarem vendo os brasileiros, como refugiados econômicos acampando no quintal deles.

Creio que enquanto durar essa crise econômica, estamos fadados a essa sina, sermos visto como um problema, algo que deveria ser erradicado, pois não somos os descendentes dos bravos japoneses que foram ao outro lado do mundo, como sempre é dito nas comemorações da imigração, somos na visão deles, uns pobres coitados que vieram em busca de migalhas da fartura nipônica. E agora que não há mais essa fartura, somos um problema, apenas isso.

Deixo aqui o meu protesto, pois não existe ninguém totalmente incapaz, existe sim a incapacidade de se dar uma chance a nós brasileiros, para provarmos que podemos sim, trabalhar e viver dignamente nessa terra.

É isso aí pessoal, até outra.





A imagem do país.

1 06 2009

Olá a todos.

Você se preocupa com a imagem do seu país?

Entre várias coisas que sinto de diferente entre o Japão e o Brasil, é a imagem que os japoneses tem de seu país e de sua cultura.

Aqui no Japão vejo sempre na TV, que é um ótimo termômetro da cultura em qualquer país, uma tendência a sempre valorizar o Japão em si. São programas mostrando vários lugares do país, com um apelo para um turismo rápido, com dicas gastronômicas e um pouco da história do lugar.

Os programas desse tipo, e outros que mostram muito da cultura e história de vários lugares do país, são coisas que gosto muito, pelo fato de mostrarem bastante a cultura, e também o cuidado e o orgulho que os japoneses tem com sua história. Algumas vezes, são locais onde não existe nada de muito especial, apenas um monumento mostrando que naquele lugar nasceu uma figura ilustre, mas a TV faz questão de mostrar a todos os expectadores que esse lugar existe.

Outras vezes mostram estabelecimentos comerciais que preparam um prato típico da região, e algo que sempre é citado é o fato do estabelecimento ter sido fundado a 100, 200 anos, e existem até aqueles que tem 400 ou 500 anos de história, e percebe-se o orgulho das pessoas em mostrar que continuam dando continuidade a uma tradição centenária.

E também existem os programas que mostram os artesãos japoneses com sua arte também centenária, e é sempre frisado que o artesão atual é o nono, décimo, ou vigésimo de uma linhagem de artesãos, com uma arte que é passada de pai para filho, e todo esse artesanato é na verdade um legado cultural sem preço.

E fora outros tantos programas mostrando as biografias de personagens famosos do Japão, desde samurais até pintores e escritores, ou qualquer figura que tenha contribuído de alguma forma para o enriquecimento da cultura no Japão.

Tudo isso me fez sentir que os japoneses são um povo que gosta de seu país, de sua cultura, e fazem questão de lembrarem isso no dia-a-dia, e não é raro escutar na TV frases como, “como é bom ser japonês”, ou então, “que bom ter nascido no Japão”. E todas são frases que demonstram o orgulho que tem de sua pequena ilha e de sua história.

Eu sendo brasileiro de nascença, apesar de ser neto de imigrantes japoneses, sinto uma certa inveja disso tudo, pois o meu país, que apesar de tudo o que há de errado nele, é um país maravilhoso, com uma cultura rica e um povo hospitaleiro, mas que não tem uma boa imagem de seu país, não são raras as opiniões de que o Brasil não tem jeito, de que o problema é a corrupção, a impunidade, e outros lugares comuns que de tanto ouvir, acabamos por ficar anestesiados. E acabamos por não mais enxergar o grande potencial que existe dentro do Brasil, mas se começarmos a enxergar as coisas com outros olhos, de repente  tudo pode mudar.

Como sempre digo, ainda tenho muito que aprender por aqui, um abraço pessoal.





Declarado estado de histeria.

22 05 2009

Olá a todos.

Nas últimas duas semanas o Japão tem estado em polvorosa por causa dessa onda de influenza H1N1 que finalmente chegou às terras nipônicas, é incrível como um país pode se tornar um inferno de uma hora para outra.

Com os recentes casos que são cada vez mais frequentes, o governo japonês entrou em estado de alerta, e a população, que vive acostumada com uma rotina na qual parece que nada no mundo pode afetá-los, finalmente está tomando consciência de que ninguém está imune a nada nesses tempos de globalização.

O mais incrível é que novamente vejo uma histeria generalizada tomando conta dos japoneses, da mesma forma que aconteceu com a SARS e a gripe aviária da China. A falta de informação e outras várias informações incompletas levam a um medo muitas vezes exarcebado. O estoque de máscaras e desinfetante para as mãos, tem se esgotado, não em questão de horas, mas em menos de uma hora, nas cidades em que se encontram pessoas infectadas. E mesmo o governo tendo colocado a disposição da população, centros de informação para tirar dúvidas, há aqueles que ligam para perguntar as coisas mais absurdas, e olha que alguns tem muita imaginação.

Por exemplo, algumas pessoas ligaram dizendo que apertaram a mão de um estrangeiro, e se havia algum perigo de contágio por causa disso. Outras em um caso mais recente na epidemia que se alastra por Kobe e Osaka, ligaram para perguntar se seria seguro receber correspondência que provinha desses locais. E há pessoas comprando via internet, remédios contra influenza que são proibidos no Japão.

Fora que em algumas cidades estão declarando fechamento de escolas, cancelamento de casamentos, shows e eventos esportivos, tudo para evitar a aglomeração de pessoas, e algumas empresas estão obrigando seus funcionários a trabalhar com máscara, para evitar uma contaminação que em muitos lugares, ainda nem existe.

A verdade por trás de tudo é que o Japão, com sua alta concentração populacional, é um lugar muito difícil de se barrar uma doença como essa, e as dores de cabeça do ministério da saúde do Japão, estão apenas começando.





Onde isso vai parar.

20 05 2009

Olá pessoal.

Encontrei ontem uma notícia no site do G1, que me deixou preocupado, a xenofobia, que é um comportamento considerado normal em tempos de crise, está começando a tomar forma também no Japão.

Enquanto vivemos na incerteza do amanhã aqui no Japão, me parece que este país está tentando tornar os estrangeiros responsáveis por uma parte da crise atual, de repente nos tornamos “persona non grata” neste país.

E o mais incrível de tudo é que internamente, não há nenhuma informação sobre as declarações da reportagem, eles simplesmente omitem dos noticiários qualquer informação que possa ser constrangedora para o governo japonês. O governo japonês, despachando os brasileiros? Mentira, não ouvi uma só palavra na TV nem nos jornais. Essa é a reação dos japoneses, eles preferem fechar os olhos para os problemas, pois o que os olhos não veem o coração não sente.

Pior para nós os descendentes, que temos tanta afinidade com essa terra, pois achamos que somos como irmãos que vieram de fora e seríamos aceitos facilmente, ledo engano, pois quando a coisa aperta ouvimos afirmações cínicas de políticos que  não sabem o quanto é sofrido viver e trabalhar em um país estranho. Na época em que o Japão precisava de mão de obra e os jovens desse país não queriam trabalhar em serviços pesados e sujos, viemos e demos nossa contribuição, e agora que não somos mais necessários simplemente somos convidados a nos retirar.

E a sociedade no geral, simplesmente ignora esse fato, pois com uma mídia manipulada, não se tem conhecimento de nada, nem desse “incentivo” do governo para a retirada dos estrangeiros, nem das afirmações polêmicas de alguns políticos, a xenofobia está se tornando um cinismo deslavado, e nós as “vítimas” disso, somos obrigados a aceitar tudo sem discutir.

E sobre essa idéia de “exigir o conhecimento do idioma japonês para a liberação do visto”, eu duvido que metade dos estrangeiros passe em qualquer prova que o governo venha a exigir, e principalmente os que estão faz pouco tempo no país, pois muitas províncias e prefeituras não tem um programa que ajude o estrangeiro a se integrar a comunidade japonesa. Simplesmente muitos apontam dizendo isto ou aquilo é errado, mas não fazem muito para ensinar os costumes e as regras da vida no Japão. Simplesmente fecham os olhos para o fato de que não vivemos de graça aqui, também pagamos impostos como qualquer japonês, tudo o que eles pagam nós brasileiros também pagamos, e agora somos simplesmente convidados a nos retirar, como se o tempo em que estivemos aqui, fosse um favor gratuito feito pelo governo japonês.

Por isso me pergunto, onde é que vai parar tudo isso, o cinismo de um governo que agora quer lavar as mãos, quando vê que não há como arrumar facilmente uma colocação para os estrangeiros, mais a xenofobia de um povo, que acha que todos os problemas serão resolvidos apenas ignorando a presença desses estrangeiros do seu quintal.

E assim caminha o Japão nos dias de hoje.





Frágil equilíbrio.

19 05 2009
Akihabara

Akihabara

O Japão é um país interessante, enquanto se vive a loucura da vida hi-tech no dia-a-dia, com a nata da alta tecnologia como televisores, celulares, games e carros modernos, existe um outro Japão que parece ter parado no tempo.

É interessante ver o contraste entre a modernidade, que insiste em invadir todos os lugares, e a cultura e a tradição, que insistem em sobreviver em meio a tudo isso.

As vezes andando no meio de uma metrópole, deparamos com um templo budista, incrustado em meio aos prédios, totalmente deslocado em meio a paisagem moderna. Assim como vemos monges budistas com o mesmo tipo de roupa usado durante séculos, coisa muito fácil de se perceber pelos desenhos antigos em que aparecem.

Assim como não é raro ver pelas ruas de vez em quando, mulheres trajando “kimonos”, que são roupas de um estilo que vem de vários séculos. São roupas usadas em ocasiões especiais, como casamentos, formaturas e tudo o que seja necessário usar uma roupa de “gala”.

Assim como até hoje, apesar da cultura ocidental estar invadindo o Japão, ainda se usa o tão antigo “tatami” nas casas, com portas de correr feitas de papel, e ainda se usam “futons” para dormir, e “zabutons” para se sentar, mesmo depois de se passar mais de um século desde a queda dos samurais, ainda se usam as mesmas coisas que eram usadas naquela época.

Esse equilíbrio entre o moderno e o tradicional, é que eu considero umas das coisas impressionantes no Japão. O fato de um povo guardar e se orgulhar de sua cultura, o que eles simplesmente chamam de “Wa no kokoro”, que pode ser traduzido como “o coração japonês”, algo que dizem, todo japonês tem dentro de si.

chado

Cerimônia do chá





O que é ser consumidor?

18 05 2009

Olá a todos.

Ontem tive uma conversa interessante com minha esposa, ela é japonesa e de vez em quando me pergunta como funcionam as coisas no Brasil. Confesso que as vezes tenho vergonha de dizer algumas coisas, pois o Brasil se mostra tão injusto e desigual comparado ao Japão, que chega a ser absurdo certas coisas que acontecem em nosso país.

Continuando sobre a conversa, ela me perguntou se no Brasil os serviços e produtos são baratos, pois items alimentícios são bem mais em conta se comparado ao Japão. Expliquei que bens de consumo como eletrodomésticos e carros, são desproporcionalmente caras, levando em conta o poder aquisitivo da população em geral, e como exemplo usei os produtos eletrônicos como exemplo, que custam mais caro que no Japão, mesmo o salário médio no Brasil sendo três vezes menor.

Outra coisa que ela ficou chocada foi o tratamento dado ao consumidor, contei certos casos de total falta de respeito pelo consumidor, principalmente no atendimento público. Na inicativa privada, que deveria ser “melhor” por se tratar de empresas que ganham com a venda de produtos ou prestação de serviços, a situação também não é lá muito animadora, continuo vendo que ainda há muito que melhorar.

Uma pergunta que ela me fez e que também eu me fiz várias vezes a respeito de casos de falta de respeito ao consumidor, era se as empresas se esqueceram de quem é que paga as contas, elas se esquecem que existem, porque existem consumidores, sem consumidores não existe negócio.

No final de toda a explicação, minha esposa chegou a seguinte conclusão, o Brasil é essa bagunça porque não existe regulamentação(grande novidade né?), e falta concorrência também, no Japão, uma empresa que não satisfaz  o consumidor está condenada a quebrar, aqui ninguém vai onde não é bem atendido.

Tentei explicar que apesar de tudo, existem as empresas sérias que fazem tudo para satisfazer o consumidor, mas as que agem de má fé, se sobressaem muito mais no contexto geral, pela propaganda negativa, onde vale a máxima, “falem bem, ou falem mal, mas falem de mim”.

Ainda há muito a ser feito, para que o Brasil atinja o nível de excelência que o Japão atingiu, onde se duas empresas oferecem o mesmo produto, a diferença é tirada no atendimento ao consumidor , ganha quem atende melhor. E espero que um dia, nós brasileiros, cheguemos lá.

Um abraço pessoal.





Os japoneses são frios?

17 05 2009

Olá a todos.

Umas das coisas que nunca tinha me passado pela cabeça, mas que desde criança fazia parte de minha vida, era o fato dos japoneses serem excessivamente reservados. Meu avô, era um japonês típico, calado, turrão, rígido na educação e em seus princípios, não muito hábil em demonstrar seus sentimentos. Mas a sua maneira, demonstrava seu amor pela família.

Isso não me parecia estranho por causa da convivência, e quando vim ao japão, percebi nos japoneses mais velhos o mesmo tipo de comportamento, e em um grau um pouco menor, nos mais jovens.

Como no Brasil tinha poucas referências para entender este tipo de comportamento, não entendia muito bem e achava isso normal, mas chegando aqui comecei a entender melhor o comportamento desse povo.

Com muita curiosidade olhava a maneira dos japoneses se relacionarem uns com os outros. Sempre com muita cerimônia e respeito, parecia que sempre estavam sempre se reverenciando mutuamente, até contava quantas vezes eles se curvavam quando agradeciam algum favor.

Até hoje me parece estranho como eles evitam demonstrar seus sentimentos em público, são raros os casais que andam de mãos dadas, e beijos em público então nem pensar. Em conversas entre casais, mesmo amigos, eles ficam envergonhados quando se falam assuntos como esse. Os amigos não se abraçam, no máximo um aperto de mão, parece até que existe um muro invisível entre eles.

E por causa de tudo isso fica a impressão de que são um povo frio, o que não deixa de ser verdade, se comparado a cultura irreverente dos brasileiros, mas quando visto de um outro ângulo, seria mais um excesso de respeito por parte dos japoneses. No Japão existe um ditado que diz, “tanin doushi, reigi ari”, que quer dizer “entre estranhos, deve existir respeito”, que traduz a maneira que os japoneses encaram a relação com outras pessoas.

Mas apesar das aparências, existem os japoneses que são bem parecidos com os brasileiros, assim como existem os brasileiros que são bem reservados, muito mais parecidos com os japoneses, mostrando que sempre existem as excessões à regra. Mas todos os japoneses, depois de uma longa convivência, acabam se tornando mais abertos, apesar de no começo ser meio estranho, no final eles acabam por se acostumar com qualquer um.

Mas a cultura de um povo é algo que não pode ser mudado, e tudo funcionou muito bem até hoje e assim será por um bom tempo, mas mesmo assim tenho ainda muito o que aprender sobre os japoneses.

É isso aí pessoal, um abraço.